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DIX AMICO
São Luiz
De 06 a 08 anos
Assombrações que vão além da simples fantasia
Ao tentar compreender melhor o mundo real, a criança se assusta e tem medo dos desafios da vida.

Desde cedo, muito cedo, o medo faz parte do repertório das nossas emoções. Do bebê, que se apavora com a sensação de fome, à criança, entre 3 e 6 anos, que teme as bruxas e mais uma infinidade de monstros imaginários, esse é um sentimento praticamente inevitável. Ele assume várias formas em diferentes situações e idades: até perto dos sete anos, as "assombrações" aparecem com frequência no reino da fantasia, mas, a partir daí, passam a ocupar outro cenário, onde os enredos são cada vez mais próximos da realidade. Nessa outra fase, bruxas, monstros e bicho papão vão sendo substituídos pelo medo de ir mal na escola, de perder o afeto dos pais ou do melhor amigo, medo de morrer, de errar ou de não vencer. Tudo parece ser motivo de preocupação para estes pequenos, que começam a se deparar com um mundo bem diferente das histórias de faz-de-conta.


Sem bicho papão.
O contato com um universo mais amplo fora do circuito afetivo casa-escola pode desencadear sentimentos de angústia e ansiedade em algumas crianças. Mas o medo de enfrentar o desconhecido, sem poder se refugiar nas varinhas de condão ou na magia das fadas, vem junto com uma vontade enorme de entender melhor a "tal realidade". Ou seja, de certa maneira, o que assusta esses pequenos é o desafio de enfrentar o mundo com todas as suas exigências.
As fantasias diminuem, é claro, mas tudo ainda é meio nebuloso para as crianças dessa idade. O fato de já estarem alfabetizadas permite que elas tenham acesso a uma quantidade enorme de informações e elaborem suas próprias conclusões, antes limitadas às narrativas e interpretações dos adultos. Mas, claro: nem sempre é possível entender tudo. Por isso, a percepção de que há milhares de coisas acontecendo em toda parte, sem que possa compreender ou interferir, pode originar quadros de ansiedade e angústia. Algumas crianças tornam-se mais introspectivas e começam a evitar situações novas. Ilvana Martins Neves, por exemplo, conta que a filha Isabela, de 7 anos, começou a se queixar de dores no estômago todos os dias antes de ir para a escola, justamente no período em que precisaria escrever a lição com letra cursiva (letra de mão). A mãe procurou tranquilizá-la: preparava um chazinho antes da menina sair de casa para mostrar que estava solidária e, tentando entender sua situação, levou-a pessoalmente à escola durante alguns dias, e conversou muito com ela sobre o medo de errar. Funcionou. Em pouco tempo a menina mostrou-se mais serena.


Além da conta.
É comum, também nessa fase, a criança começar a ver a vida com "lentes de aumento", através das quais o "mundo parece sempre mau". Na opinião da professora e terapeuta Isabel Kahn, essa tendência a superdimensionar o lado negativo da realidade é comum e tende a diminuir à medida que a criança começa a compreender melhor o mundo à sua volta. Muitas vezes, elas se deixam impressionar por alguns fatos e começam a considerar como seus os problemas alheios. A nbotícia de um sequestro, o medo do pai perder o emprego, ou alguns problemas relacionados à vida dos amiguinhos, como a separação dos pais de um deles, por exemplo, podem deixá-las extremamente angustiadas. Por achar inevitável que isso aconteça com elas também, as crianças começam a reagir de acordo com as suas piores expectativas. Falam sem parar dos seus temores e não raramente fazem verdadeiros escândalos quando os pais saem ou chegam tarde.


Dores de angústia.
O motivo do medo e a forma como é expressado varia muito. Para as crianças dessa idade, fatos aparentemente banais podem significar sofrimento de verdade. Muitas vezes, o fato do amigo preferir brincar com o novo colega é motivo para queixas do tipo "ele não gosta mais de mim". Basta uma amiga ou os primos resolverem se aproximar de outra criança para as reclamações começarem. "Vira uma verdadeira tragédia", conta uma mãe que passa pelo problema. Os medos e a dificuldade em lidar com situações novas e desconhecidas podem ainda se traduzir em "dores de barriga", enjôos, vômitos e até gastrites. São sinais de que a criança está com alguma dificuldade emocional. Nesses casos, o primeiro passo é descartar qualquer causa física e investigar os fatos e mudanças que podem ter motivado essa alteração de comportamento. Se o problema estiver relacionado com o receio de enfrentar um novo ambiente, a alternativa pode ser acompanhar a criança até que ela se sinta segura o suficiente para enfrentar a situação. "É importante que o filho sinta o apoio e a disposição dos pais em ajudá-lo", aconselha a terapeuta.


Hora do apoio.
Dar apoio não significa dizer "coitadinho, está ansioso, fique em casa até sarar". Ao contrário. Se a criança diz que está com "dor de barriga" e não quer ir para a escola, é preciso verificar a razão dessa recusa. Se for porque ela não fez a lição ou está com medo da prova, tente mostrar que é preciso ir mesmo assim e da próxima vez deverá fazer as tarefas para não passar por isso. Entretanto, nem sempre o motivo da recusa está na sala de aula, mas em casa. A criança tem medo de errar ou não corresponder à expectativa dos pais. Na maioria dos casos, uma boa conversa pode dar o "empurrãozinho" que falta para ela vencer a dificuldade.


 


ENCARANDO O MUNDO SEM MEDO



Se por um lado é inevitável o contato com alguns aspectos ruins da realidade, é possível ajudar seu filho a entender e aceitar melhor certas situações, com menos angústia.

NOTICIÁRIO. O bombardeio de fatos sensacionalistas e situações conflituosas na tevê não poupa ninguém. É comum ver notícias e cenas de violência, por exemplo, em horários normalmente dedicados ao público infantil. Nessas horas, a presença de um adulto com quem possa conversar é importante. No fundo, o medo é um sentimento que está muito relacionado com a sensação de desamparo.


TRAGÉDIAS. A morte de um parente próximo ou de um vizinho pode ser um bom motivo de medo para qualquer criança. Fingir que nada aconteceu não ajuda seu filho a entender situações como essa. Nesses casos, a melhor alternativa é falar sobre o assunto e se manter próximo a ele.  


AMIZADES À PARTE. As brigas entre crianças regadas a sentimentos fortes como "traição" existem. É comum a criança se sentir rejeitada ou traída porque o melhor amigo resolveu sair com outro coleguinha. Tente explicar para seu filho que o fato do amigo sair com outra pessoa não quer dizer que não goste mais dele. Além disso, essa pode ser uma boa oportunidade para convidar aquele amigo do prédio para ir ao clube, por exemplo, incentivando a criança a ampliar seu leque de amizades. Mas sem a intenção de revanche. 


 

(30/01/2006) Fonte: revista crescer
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